A mera existência dos heterónimos é a vexata questio
dos estudos pessoanos. Pessoa procurou assegurar a legibilidade da sua obra aos
olhos dos contemporâneos e da posteridade. Fê-lo em textos éditos e inéditos
sobre a génese e identidade dessas figuras fácticas, na dramaturgia dos seus
colóquios, elogios mútuos e prefácios, ou na infatigável escrita de inéditas e abortadas
listas de publicação das obras desses nomes segundos. E, no entanto, a primeira
ocorrência do termo “heterónimo” é tardia (1928, presença), sendo assegurada
até então por termos funcionalmente inertes como “pseudónimo”, ou circunlóquios
visando denotar a aparente dramaticidade das figuras. A interpretação crítica
da heteronímia oscila, como seria de prever, entre uma ênfase na
multiplicidade, em que Pessoa é descrito como mero rendez-vous de impulsos
mediúnicos ou dramáticos dotados, por baptismo, de um nome próprio (Alberto
Caeiro et alii), ou uma ênfase, comparativamente menor, na unidade de um
conjunto de textos que um nome próprio, Fernando Pessoa, subscreve. A primeira
ênfase é atraente a interpretações contemporâneas regidas por modelos que
contestam qualquer noção filosófica robusta de “sujeito”. A segunda, a intérpretes
que tomam como boa a posição de Pessoa quando, em 1932, advoga a publicação das
suas obras sob o seu nome próprio, por ser já demasiado tarde, diz, para manter
o “disfarce absoluto”. Esta aporia da unidade e multiplicidade de Pessoa é,
naturalmente, objecto de análise para os seus melhores intérpretes. João Gaspar
Simões, por exemplo, considera a heteronímia um inconsequente exercício fútil
que a incorporação do Pessoa ortónimo na genuína tradição lírica portuguesa
viria a reparar. Eduardo Lourenço, por seu turno, descreve Alexander Search
como um “proto-Pessoa” em que se unifica de modo incipiente a tópica
ulteriormente tratada pelos heterónimos maiores. José Gil descreve esse
proto-Pessoa como o “plano de imanência” sobre que se abate, desenhando-o, o
sensacionismo sustido em que consiste a obra do autor. A questão da heteronímia
parece um dado essencial inevitável em toda a interpretação de Pessoa.
O
projecto de investigação que submetemos pressupõe a unidade de toda a produção
escrita de Pessoa, tomada como co-incidente num só plano, independente de
género. Este pressuposto forte requer naturalmente um argumento que revele a coerência,
próxima ou remota, de todos os textos nesse plano unitário. Tomando como ponto
de acesso a noção de heterónimo, propomo-nos 1) recensear toda a ocorrência do
termo, ou de perífrases pré-1928 que o denotem, e analisá-las, assim como as
reflexões em torno dos problemas da autoria e do livro 2) rever toda a literatura
crítica sobre Pessoa, em grande parte decorrente da auto-interpretação de
Pessoa, serialmente difundida a interlocutores escolhidos (os editores de
presença, por exemplo) ou deixada inédita pelo autor. O lugar e o estatuto
desse trabalho auto-interpretativo, que Pessoa conduziu de forma continuada mas
errática, devem ser revistos, sem que se assuma que neles reside uma verdade
material inquestionável (a carta de 1935 a Casais Monteiro é o melhor exemplo
desta ofuscação), 3) uma análise exaustiva de todos os projectos editoriais de
Pessoa. O espólio de Pessoa alberga múltiplos projectos de edição e publicação
da obra, expressos em apontamentos, notas e listas em grande parte ainda
inéditas, em que se mostram variáveis não só o título atribuído a um mesmo
texto como a inclusão deste num conjunto dado ou a sua atribuição a um nome. A reunião
e análise deste material são decisivas, por nele se evidenciar como a subsunção
de um texto num nome não pode ser dissociada de um pensamento editorial e como deste
pensamento depende a atribuição de um sentido de conjunto à obra, permanentemente
transformado e nunca definitivamente fixado.
Os resultados das análises, conduzidas por uma equipa maioritariamente constituída por jovens investigadores, e acompanhada por um conjunto de nomes maiores neste domínio, serão publicados em três volumes, e debatidos num seminário permanente e em encontros abertos a todos os que queiram associar-se ao debate.
Temos o prazer de anunciar o colóquio «Estranhar Pessoa com as Materialidades da Literatura», uma iniciativa do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em colaboração com o ELAB, a realizar no próximo dia 25 de Maio na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Aqui fica o cartaz da iniciativa!
Temos o prazer de anunciar a realização do próximo Seminário Aberto do Projeto, dedicado a “Assuntos Superlativos”, que se realizará já no final de Abril, dia 30, no local habitual, na sala multiusos 2 da FCSH-UNL.
Aqui fica o programa:
E aqui o cartaz do seminário.
Realiza-se esta semana o nosso próximo “Seminário Aberto”, sexta-feira, dia 17 de Fevereiro, dedicado a “Assuntos Editoriais”! Serão objecto de debate tanto problemas de edição dos textos de Pessoa como questões relativas ao pensamento e ao planeamento editorial do poeta.
Eis o programa:
ASSUNTOS EDITORIAIS
Sala Multiusos 2 — FCSH, Universidade Nova de Lisboa — 17 de Fevereiro de 2012
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Eis o poster do seminário.
O livro “Sebastianismo e Quinto Império”, editado por Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda e publicado pela Ática, chancela da Babel, reúne 43 textos inéditos de Pessoa sobre estas temáticas, acompanhados de outros 58 já anteriormente editados e está finalmente disponível nas livrarias! Aqui ficam alguns links noticiando o lançamento e contendo ainda pequenas conversas com os editores:
- Notícia do lançamento no Público, 25.01.2012
- Conversa na TSF sobre a pesquisa que conduziu ao livro, 25.01.2012
- Conversa na Antena 1 sobre a edição, o sebastianismo e a ideia de Quinto Império, 26.01.2012
Anunciamos com entusiasmo a realização do próximo “Seminário Aberto” no dia 17 de Fevereiro, dedicado a “Assuntos Editoriais”! Serão objecto de debate tanto problemas de edição dos textos de Pessoa como questões relativas ao pensamento e ao planeamento editorial do poeta. Eis o programa:
ASSUNTOS EDITORIAIS
Sala Multiusos 2 — FCSH, Universidade Nova de Lisboa — 17 de Fevereiro de 2012
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Eis o poster do seminário.